A Resiliência No Processo Hipnótico
Autora: Norma Manhãs Guerra (CRP 05/12627)
“Não seria uma história de sucesso, mas a briga de uma criança empurrada para a
morte que inventa uma estratégia para voltar à vida. Não um fracasso anunciado desde
o começo de um filme, mas o desenrolar imprevisível, com soluções surpreendentes,
muitas vezes romanescas.”
Boris Cyrulnik
O uso do termo resiliência vem sendo usado há muito tempo no campo da física
mecânica, referindo-se a resistência dos materiais (até a década de 60). Nasceu de um
antigo termo do latim, resalire, que quer dizer saltar de volta.
No dicionário Aurélio há essa referência: seria “uma capacidade de resistência
ao choque, ou propriedade pela qual a energia armazenada em um corpo é devolvida
quando cessa a tensão causadora duma deformação elástica.
A língua inglesa faz também referência às pessoas: descreve como habilidade
delas voltarem mais rapidamente para seu usual estado de saúde ou estado de espírito,
depois de passar por doenças ou dificuldades.
Na área da psicologia, foi utilizada pela primeira vez pela especialista americana
Emma Werner, que acompanhou durante 30 anos o desenvolvimento de crianças
carentes do Havaí, submetidas a inúmeros traumas, doenças e violências. O resultado da
pesquisa revelou que um terço delas foi capaz de voltar a ser feliz após vivenciar a
situação traumática, enquanto que dois terços tiveram dificuldades de adaptação.
Inicialmente, tal capacidade remetia a idéia de invencibilidade ou
invulnerabilidade, usada para descrever crianças que apesar de expostas a prolongados
períodos de adversidade e stresse psicológico, apresentavam saúde emocional e alta
competência.
Invencibilidade e invulnerabilidade passavam a idéia de uma característica
intrínseca ao indivíduo, imutável, constante e ilimitada para suportar adversidades.
Posteriormente, as pesquisas mostram que a resiliência é relativa, que suas bases
são tanto constitucionais quanto ambientais, e que o grau de resiliência não tem uma
quantidade fixa e varia de acordo com as circunstâncias. A pessoa não era invencível 28
nem invulnerável, mas resistente ao estresse, cabendo assim o termo e a afirmação de
que nós não somos resilientes, estamos resilientes.
Estudos e testes realizados por especialistas citam algumas ferramentas usadas
para se chegar a um conjunto de características e traços que identificam a criança ou
pessoa resiliente.
- Sociabilidade – as crianças devem se relacionar com crianças e desfrutar desse mundo
infantil.
- Criatividade na solução de problemas – aprender a lidar com a frustração para poder
despertar a criatividade.
- Senso de autonomia e de respostas – estimular sua mente sábia.
Outro fator relevante é a idiossincrasia da memória; é como ele interpreta e narra
a sua história. Tudo vai depender do temperamento do indivíduo que o fará agir, ver,
sentir e reagir de maneira pessoal à ação dos agentes externos.
Boris Cyrulnik
O pai da resiliência, Boris Cyrulnik, que retomou os estudos de Emma Werner,
baseou sua teoria também em sua experiência pessoal. Nascido em 1937, filho de judeus
russo-polonês, quando tinha seis anos de idade, durante a segunda guerra mundial,
escapou de uma batida policial na França, onde perdeu seus pais e irmã, deportados e
mortos em campo de concentração nazista. Boris foi resgatado por um grupo da
resistência francesa, tendo o seu nome trocado e durante anos não pode dizer a verdade
sobre sua história; ainda criança teve que reaprender a viver.
Na adolescência destaca-se como desportista usando esse potencial e modelo
como metáfora no processo de descoberta científica. Nos anos 60, estuda medicina e
direciona-se para a etologia (estudo comparado do comportamento dos animais),
fazendo residência médica na neurologia, psiquiatria e psicanálise. Depois de formado
dedicou-se ao estudo da superação de eventos traumáticos.
Considerado o pai da resiliência, ele integra conceitos biológicos, psicológicos e
éticos ao questionar sobre a capacidade do sujeito em superar as adversidades da vida.
Para ele, diante da perda, da adversidade e do sofrimento inevitável, em alguns
momentos da vida, duas estratégias são possíveis: tornar-se vítima ou transcender o
momento. 29
A psicóloga Yeda Mazepa diz que: “pense no papel que atribui a si mesma. Não
é bom ser vítima nem heroína, só humana.”
A resiliência vem como fator de prevenção à saúde.
Milton Erickson
“A terapia tem a tarefa de ajudar o paciente a descobrir seus próprios potencias para
mudança, não percebidos antes.”
Milton Erickson
Assim como não poderíamos deixar de lembrar da celebridade resiliente de
Milton Erickson, pai da hipnose moderna, esse mestre ilustre viveu a resiliência em
vários momentos e etapas de sua vida.
Filho de fazendeiro contraiu poliomielite aos dezessete anos e ouve o médico
dizer para sua mãe: “Esse menino não passará do amanhecer.” Indignado, pediu a sua
mãe que colocasse sua cama de tal maneira que visse o sol nascer “_Se o sol nascer, eu
não morrerei.” Aos primeiros raios de sol, entrou em coma profundo, despertando dias
depois, já refeito do pior; a morte. Foi sua primeira luta interior quando experienciou a
força vir de dentro.
Mais tarde, constatou o primeiro dos conceitos que veio a desenvolver, o
princípio ideodinâmico. Ele estava preso a uma cadeira de balanço vendo os
camponeses trabalhando no campo, e ele com muita vontade de estar lá. Em algum
momento percebeu que a cadeira balançava. Como isto poderia acontecer se estava
paralisado? Foi aí que percebeu que seu corpo fazia um movimento de ir para frente,
com sua idéia de ir para fora. Começou a treinar as mãos, braços e reaprendeu a andar
passo a passo até se recuperar.Viu que a força vem de dentro. Com a utilização da
hipnose naturalista, ressignificou os caminhos ditos problemáticos.
Ele ensinava aos seus alunos através de seminários vivenciais sua metodologia,
não teorizando.
Hoje o vocábulo resiliência é aplicado em vários campos e contextos: na
ecologia, na economia, na física, psicologia, informática, empresa (RH). As pesquisas
na área da psicologia, mostram que a resiliência pode e “deve” ser aprendida,
desenvolvida e aprimorada. Somente 20% das pessoas conseguem manter-se
competentes em ambientes de pressão.30
Não podemos impedir situações stressantes, mas podemos definir por quanto
tempo vamos alimentar o sofrimento, e canalizar essa emoção para uma ação
construtiva.
O resiliente opta pela criatividade e inteligência diante de uma situação adversa,
transformando: desânimo em persistência, descrédito em esperança, obstáculo em
oportunidade, tristeza em alegria. Ele desenvolve o aprendizado no sentido de superar
desafios com o máximo de competência, sabedoria, excelência e saúde possíveis.
Resiliência é a capacidade de adaptação, demonstrada através da recuperação
pessoal após o impacto inicial da mudança e permite que evitem as distorções do
choque no futuro.
O resiliente não é insensível, se adapta para se ajustar à situação, acompanhando
as mudanças ao seu redor, que são mais frutíferas que danosas, enquanto que o
acomodado permanece estático. Ao contrário das vítimas o resiliente, prospera durante a
quebra de suas expectativas e a desordem causada pela adversidade.
Os resilientes não enfrentam menos desafios que os outros mas recuperam seu
equilíbrio mais rapidamente, mantendo o nível de qualidade e produtividade nas
dimensões: pessoal, profissional, da saúde física e emocional. Ele alcança assim seus
objetivos, sofre o impacto, mas reúne forças para se reposicionar. A lucidez é a forma
que o torna permeável ao processo de mudança.
Ele relata as adversidades de sua vida como oportunidade de aprendizado e
consegue manter a conduta sã mesmo estando num ambiente insano; transforma toda
energia de um problema em uma solução criativa; supera tudo tirando proveito dos
sofrimentos inerentes às dificuldades, trazendo do passado somente o aprendizado da
situação dolorosa.
Quanto mais resiliente for, maior a capacidade de desenvolvimento pessoal,
sendo capaz de vencer as adversidades, por mais traumáticas que sejam, desde um
desemprego inesperado a morte de um ente querido, separação dos pais, repetência na
escola ou catástrofes.
Em face da desintegração psíquica-emocional, uma pessoa necessita descobrir
novas formas de lidar com a vida e dessa experiência aprender a se reorganizar de
maneira eficaz.
Resiliência é a arte de ser flexível, de resistir às adversidades e utilizá-las para
seu desenvolvimento pessoal/social, dando a volta por cima e amadurendo. Ela é uma
conquista pessoal. 31
A psicologia estuda a situação de risco, stresse nas situações adversas, e
respostas finais de adaptação e ajustamento. O risco deve ser sempre pensado como
processo e não como variável em si, são flutuantes na história do indivíduo. Mudam de
acordo com as circunstâncias de vida e têm diferentes repercussões, dependendo de
cada um. Não podemos pensar em causa e efeito. O evento chave representa somente o
indicador de uma situação de risco, mas o mecanismo de risco envolve uma rede
complexa de acontecimentos anteriores ao evento chave.
Uma mesma situação de vida pode ser experienciada por um indivíduo como
perigo, enquanto que para outro, pode ser vista como desafio e oportunidade de
crescimento.
Eventos operam como estressores na medida em que sobrecarregam ou excedem
os recursos adaptativos da pessoa.O fatalismo e resignação passam longe dos resilientes.
Os projetos dos resilientes vem acompanhados de imagem. Quem não consegue se
projetar no futuro, dificilmente realiza seus sonhos como nos ensina a Hipnose.
Composição das características das pessoas resilientes:
Formação genética, meio sociocultural, traços de personalidade.Treinando no dia a dia a
autodisciplina, que só vem com o tempo, e a autoconfiança que é reflexo dos sucessivos
registros do nosso potencial regenerativo, podemos desenvolver uma maior capacidade
de resiliência.
Falta de resiliência acarreta:
Doenças psicossomáticas, é fruto da falta de habilidade para flexibilizar e adaptar-se às
adversidades.
Conclusão
Fica evidente quando estudamos resiliência que a hipnose / auto hipnose, é fator
preponderante para que seja feita a ressignificalação dos fatores estressantes de nossas
vidas.
Constatamos tal evidência ao traçarmos um paralelo das vidas de Boris Cyrulnik
e Milton Erikson, que a partir de suas experiências pessoais elaboraram metodologias
para presentearem a humanidade, no sentido de trazer entendimento e cura para as
feridas que até então pareciam sem recursos para fecharem.32
Quando em nossos consultórios lançamos mão da poderosa ferramenta chamada
hipnose, podemos elucidar dificuldades a luz da resiliência transformando a dor em
crescimento.
Esse processo acontece em via de mão dupla, paciente e terapeuta, trabalhando
para criar multiplicadores do conceito de resiliência como fator profilático da dor, tanto
para si próprio, como para o ambiente ao qual está inserido. Eles representam uma fonte
de inspiração inesgotável.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
Resiliência: A arte de ser flexível – Flach,F. Ed.Saraiva
Autobiografia de um espantalho – Boris Cyrulnik Ed. Martins Fontes.
A queda para o alto – Herzer, A. Ed. Vozes
Supere! A arte de lidar com adversidades – Eduardo Carmello Ed. Gente
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